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quinta-feira, 20 de março de 2025

A ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho atinge diretamente três comunidades

As obras de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho atingem diretamente três comunidades: Vila Dique, Vila Nazaré e Vila Floresta. As intervenções estão ocorrendo no âmbito do PAC Transportes (Aeroportos) e algumas das ações estão vinculadas diretamente à Matriz de Responsabilidades para a realização da Copa do Mundo FIFA 2014. O Núcleo Porto Alegre do Observatório das Metrópoles acompanha este processo desde 2010 quando o objetivo era analisar o processo no âmbito do PAC. 
A realização das obras no aeroporto é resultado da articulação em esfera nacional de três entidades: a INFRAERO, que destinou recurso inicial em torno de R$ 5,4 bilhões para 14 aeroportos incluídas as cidades-sedes dos grandes eventos esportivos; o Ministério do Esporte, que participa das discussões com vistas para a Copa de 2014 e Ministério das Cidades, sobretudo em relação aos eixos Transportes e Habitação.
No âmbito do PAC a previsão de investimentos nos aeroportos tem por objetivos garantir atendimento à crescente demanda em especial nas cidades-sede da Copa de 2014; fortalecer a estrutura de armazenagem e distribuição de cargas; assegurar as condições de segurança operacional. 

No ano de 2007, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul publicou documento do Fórum Temático Infraestrutura assinalando a necessidade da ampliação da Pista do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Segundo o projeto proposto o objetivo era ampliar a competitividade nas exportações do Estado. 

Por sua vez, a realização dos jogos para a Copa de 2014 e o aporte de turistas na cidade levou o município a se envolver no processo constituindo-se mais um ente federativo a se empenhar para a concretização das obras no aeroporto. 

Levantamentos publicados na Nota Técnica do IPEA, apontam defasagem em relação à capacidade nos aeroportos no Brasil e mostram que, mesmo com todos os investimentos previstos, ainda assim não será suficiente para atender as necessidades atuais em alguns dos aeroportos. No entanto, no caso do Aeroporto Internacional Salgado Filho, as mudanças se constituem incrementos importantes em relação à capacidade atual. A ampliação do número de horas disponíveis para pouso e decolagem em função da instalação de equipamento que melhora a navegação em dias nublados é uma das mudanças comemorada pelos técnicos. 

Considerando os objetivos das obras no aeroporto citadas anteriormente (transporte de passageiros, de cargas e melhorias no sistema de navegação aérea) as intervenções foram definidas em 3 empreendimentos: ampliação da pista, construção de novo complexo de logística de cargas (pátio de aeronaves, edifício de administração e órgãos públicos, estacionamentos de caminhões e veículos) e a instalação de equipamento ILS2 que visibilidade em dias nublados.

Quando se discutiu a inclusão das obras do aeroporto na Matriz de responsabilidades da Copa havia a expectativa de conclusão de todas as etapas para a Copa de 2014. No entanto, segundo o 7º Balanço do PAC2 as obras do terminal de cargas terão prazos estendidos para além de 2014 e a avaliação foi classificada no balanço como “situação preocupante”. Quanto a ampliação da pista, também entrou no novo cronograma com data para conclusão não divulgada, porém não estará pronta para a realização da Copa 2014. Outras melhorias foram consideradas estratégicas para a realização do evento, tais como a instalação dos módulos operacionais já encontram-se em funcionamento e a ampliação do terminal de passageiros tem previsão de conclusão da primeira fase em maio de 2014.

IMPACTOS SOBRE A MORADIA

Foram três as comunidades diretamente atingidas pelas intervenções no Aeroporto Internacional Salgado Filho, conforme TABELA 1 e FIGURA 1. 
Da mesma forma como ocorreu a articulação entre as três esferas governamentais para encaminhar as obras do aeroporto, o tratamento para a disponibilização de área para as obras se deu no mesmo modelo de articulação. As questões relacionadas à moradia foram tratadas dentro do PAC- Urbanização de Assentamentos Precários, desapropriações e recentemente através da produção habitacional do Programa Minha Casa Minha Vida. 

TABELA 1 – Intervenções no Aeroporto Internacional Salgado Filho e comunidades na área de influência.





VILA FLORESTA: As famílias atingidas foram aquelas que vivem no local mais próximo à cabeceira da pista do aeroporto. Foram as únicas que se encontravam em bairro regularizado. Para as remoções foram firmadas parcerias entre governo estadual e União. O objeto da parceria foi a desapropriação para a União da área necessária para a construção do novo terminal de cargas. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul, através da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano empreenderia as ações de desapropriação de 150 imóveis e a retirada das famílias. A INFRAERO participou com a destinação de R$ 61,1 milhões para providenciar a transferência e reassentamento.

Em 25 de novembro de 2010 ocorreu a primeira Audiência Pública no hangar do antigo aeroporto contando com a presença de aproximadamente mil pessoas incluindo os moradores atingidos. Na ocasião, a Procuradoria Geral do Estado e o Juiz Federal apresentaram pela primeira vez a planta com a identificação das áreas atingidas e imóveis a serem desocupados. 

Nesta mesma data foram entregues aos proprietários dos imóveis o laudo da avaliação, envelopes com o valor venal e a data da reunião com o poder público para formalizar a indenização e a transferência dos valores para os proprietários.

Aparentemente o problema da destinação da área estava resolvido para o poder público. No entanto, graves problemas de moradia se apresentaram para 42 famílias de inquilinos que viviam nos imóveis desapropriados. Sem a possibilidade de indenização, as famílias se organizaram e articularam numa mobilização que apresentou um resultado inédito nos últimos anos na cidade de Porto Alegre. 

Em 29 de março de 2011 município, estado e INFRAERO foram chamados à Câmara Municipal de Porto Alegre para reunião que trataria de encontrar uma solução para os inquilinos da Vila Floresta. Segundo representante da INFRAERO, o prazo para os moradores deixarem as casas era de 90 dias após o pagamento das indenizações. O município, por sua vez, se eximiu da responsabilidade argumentando que não lhe cabia ação no acordo realizado entre governo estadual e INFRAERO. 

No dia 05 de abril de 2011 novamente retornam à Camara Municipal e desta vez as famílias reforçaram que não tinham sido informados do processo em tempo hábil e que não dispunham de recursos para a saída do local. Na ocasião, foi levantada a possibilidade de, numa operação também inédita (!), governo do Estado do Rio Grande do Sul, município e INFRAERO dividirem o aluguel social no valor de R$500,00 de cada uma das 42 famílias! Em ofício, a INFRAERO informou que não participaria da operação pois já havia cumprido com o pagamento da desapropriação além do fato de já tramitar na justiça ação de reintegração de posse e despejo. 

As 42 famílias resistiram à saída do local com apoio da Assessoria Jurídica Popular (ONG ACESSO) e CEJUSCON (Justiça Federal) e participação ativa da comunidade e conseguiram prorrogação da saída das famílias para novembro de 2012 em unidades habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida no Bairro Camaquã. Distante do local de origem, porém em bairro consolidado na cidade de Porto Alegre. No entanto, a transferência ainda não ocorreu porque as unidades habitacionais não foram concluídas. Atualmente as famílias vivem praticamente confinadas entre os muros levantados pela INFRAERO com apenas portão de acesso à seus locais de moradia e em condições precárias em relação aos serviços básicos.

Observação importante que deve ser feita é que toda vez que um grupo de famílias entra em processo de remoção, os serviços básicos são retirados mesmo que ainda permaneçam moradores no local. Mesmo considerando uma vitória do movimento dos inquilinos, as famílias ainda aguardam a conclusão do processo em meio aos escombros das casas já demolidas e às obras do aeroporto que provocam impactos na saúde dos moradores principalmente pelo barulho do trabalho noturno das máquinas que só podem funcionar no intervalo entre 1h e 6h2 da manhã quando não há voos no aeroporto.

VILA NAZARÉ: A justificativa para a remoção da Vila Nazaré é que está na área da instalação do equipamento denominado ILS2 que permitirá navegação aérea em dias nublados. Segundo a INFRAERO este equipamento ampliará o número de horas disponíveis para pouso e decolagem de aeronaves. 

Diferente da Vila Floresta, a Vila Nazaré trata-se de uma ocupação onde vivem aproximadamente 1.322 famílias. Segundo levantamento socioeconômico realizado pelo Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB)1 da Prefeitura de Porto Alegre, o local recebeu os primeiros moradores ainda em 1959, portanto, é uma ocupação consolidada há bastante tempo. 

Na comunidade existem aproximadamente 71 unidades construídas onde se praticam atividades comerciais e 16 unidades de práticas religiosas. Contam, também, com equipamentos comunitários: creche, Unidade Básica de Saúde, escola (anexo da Escola Estadual Ernesto Tocchetto), associação de moradores. 

Apesar da existência destes equipamentos, são precários e insuficientes para atender adequadamente todas as famílias. Moradores reivindicam uma escola própria para a comunidade e até a ampliação de um posto de saúde fora da comunidade.

A maioria dos domicílios apresentam acesso precário aos serviços de água e energia elétrica. Nas áreas mais antigas da Vila, observam-se casas em alvenaria com padrão que se destaca das demais e que se relaciona com a renda diferenciada dentro da comunidade. As unidades habitacionais mais precárias são de madeira, correspondem às ocupações mais recentes e se caracterizam por ocupar os locais insalubres próximos à área alagadiça e distante do acesso aos serviços.

A população apresenta estrutura etária predominantemente jovem (72%) na faixa etária até 35 anos. A população em idade escolar, na faixa entre 0 e 14 anos representa 36% do total populacional e são atendidos nas escolas públicas. É preciso ressaltar o grave problema do baixo atendimento (20%) das crianças até 6 anos em estabelecimentos de educação infantil. Considerando que mais de 60% dos responsáveis pela família são mulheres, este problema se constitui uma sobrecarga maior para mulheres que precisam dividir entre trabalho e o cuidado com as crianças. 

A comunidade apresentava no momento da realização do levantamento aproximadamente 150 famílias vivendo da coleta de material reciclável e que possuíam carroça, cavalo ou carrinho. 

Quanto à remoção e reassentamento, a população se divide entre aqueles que passaram a vida toda ouvindo que seriam removidos e ainda não acreditam na remoção e aqueles que estão muito preocupados.

Havia a proposta para o início das construções acontecerem ainda em dezembro de 2010 e conclusão prevista para junho de 2011. No entanto, o município deu início às obras de infraestrutura em uma das áreas somente no início do mês de abril de 2012 e ainda não há previsão para início das transferências das famílias. 

Para o reassentamento foram adquiridas duas áreas. Uma delas, conhecida como Bom Fim no Bairro Sarandi, está mais próxima do local de origem dos moradores e atenderá somente 356 famílias e terá 15 unidades comerciais.

As demais famílias deverão ser reassentadas no bairro Mário Quintana, na Rua Irmãos Maristas, próximo à comunidade do Timbaúva. Este local de reassentamento é motivo de muitas preocupações por parte dos moradores pois está afastado do local onde vivem atualmente e onde tem segurança em relação à geração de renda.

Os moradores convivem com a insegurança provocada pela expectativa da mudança por um lado, e por outro com preocupação de se tornarem esquecidos pelas secretarias responsáveis pelos serviços na comunidade. Alguns dizem que levará até 5 anos ou mais para ocorrer a remoção, porém é o medo da invisibilidade que mais os preocupam. 
VILA DIQUE é o exemplo do mais longo processo de reassentamento em curso em Porto Alegre. Foi a primeira comunidade atingida pelas obras a passar pela remoção e reassentamento. Da mesma forma como a Nazaré, a Vila Dique trata-se de uma ocupação consolidada vizinha ao aeroporto. 

O projeto habitacional para reassentamento da Vila Dique ocorreu através de convênio entre município e Governo Federal que previa repasses do Orçamento Geral da União no contexto do PAC Urbanização de Assentamentos Precários.
A Caixa Econômica Federal foi o agente financiador e o contrato de repasse sofreu 2 ajustes até 26/02/2010: o primeiro relacionado à realização das obras de infraestrutura para implantação do loteamento, e o segundo previa a construção de 1.476 unidades habitacionais, 103 unidades comerciais e 01 centro comunitário para o loteamento. 

O plano de disponibilização de área seguiu o cronograma inicial da INFRAERO e as primeiras famílias removidas disponibilizaram a área e deram lugar ao muro que cercou o local de ampliação da pista do aeroporto.
As primeiras famílias foram removidas no final de 2009 já com 1 ano de atraso. Poucos meses após, no início de 2010, o Tribunal de Contas da União publicou relatório de vistoria que apontava inúmeras irregularidades na obra1. Ao longo do ano de 2010 foram removidas somente as famílias que estavam na local de ampliação da pista do aeroporto. 

Em 21 de janeiro de 2011, a área correspondente à pista foi transferida para a INFRAERO em cerimônia realizada no próprio local das remoções. No reassentamento ainda não haviam casas disponíveis para todos os moradores que foram removidos. Alguns foram transferidos para casas de passagens no Bairro Mário Quintana, outros no meio da calçada do próprio reassentamento. Famílias foram alojadas em casas através de aluguel social e outras que possuíam cavalos e carroças foram transferidas para o lado extremo da comunidade, no trecho conhecido pelos moradores como “Estrada de Chão” (um dos locais mais precários da Vila Dique e onde permanecem até hoje). 

Este processo de improvisação de alojamento das famílias provocou inúmeras manifestações e protestos. Durante a cerimônia de entrega da área, moradores reagiram contra a possibilidade de irem para casas de passagens ou aluguel social. A denúncia de que o município estava efetuando despejos e abrigando famílias de forma precária e que violava direitos humanos associados à uma obra que relacionada com a Copa do Mundo foi uma das razões que trouxe à Porto Alegre a relatora da ONU para o Direito à Cidade, a urbanista Raquel Rolnik.

Em abril de 2012 menos de 50% das famílias haviam sido transferidas. Somente em junho de 2013 o município assinou o contrato com a Caixa Econômica Federal para concluir a construção de 554 moradias. Assim, observamos que desde final do ano de 2009, mesmo com transferência da maioria das famílias, centenas de famílias da comunidade da Vila Dique ainda aguardam pelo reassentamento enquanto convivem com serviços precários. A situação mostrada no vídeo “Nem urbanização, nem reassentamento” é ainda a realidade de centenas de famílias remanescentes que viram o tempo passar, adolescentes passarem à idade adulta e constituírem famílias sem que o direito à moradia adequada tenha se concretizado.
Agora, inicia-se uma nova etapa onde as novas casas encontrem-se em construção mas as famílias desconhecem as características e funcionamento do programa Minha Casa Minha Vida em que serão inseridas. Alertamos que os diferentes procedimentos dentro de um mesmo reassentamento e a fragmentação da comunidade em locais distintos é motivo para que o poder público tenha atenção redobrada e tente evitar conflitos entre os próprios moradores. 

Somado a isto novas discussões importantes se iniciam. Uma delas diz respeito ao projeto de retirada das carroças e carrinhos utilizados na coleta de resíduos sólidos das ruas de Porto Alegre. Com recursos do BNDES Copa, o município de Porto Alegre encontrou meios para implementar a Lei nº 10.531, de setembro de 2008, que “tem como finalidade promover ações que viabilizem a transposição dos condutores de VTAs2 e VTHs, para outros mercados de trabalho.”. Esta medida atinge diretamente famílias da Vila Dique que não foram para o reassentamento porque sua sobrevivência dependia do trabalho de coleta de resíduos sólidos. 

O Município discute essas alternativas com movimentos de catadores da cidade. Porém, não há medidas claras e em implantação para inclusão dos trabalhadores na cadeia produtiva de resíduos sólidos. Apenas a expectativa de trabalho em Unidades de Triagens que serão construídas futuramente.
Outra questão que precisa ser esclarecida para o grupo de famílias que serão reassentados dentro do Programa Minha Casa Minha Vida é qual a relação com o Decreto nº 7.795 de 24 de agosto de 2012 que prevê a ampliação na faixa de renda mensal das famílias atingidas por obras do PAC e dispensadas a participação financeira dos beneficiários. Cabe destacar que esta modalidade está em implementação para as famílias atingidas pelas obras da Av. Tronco em outra região da cidade.


2Veículos de Tração Animal e Veículo de Tração Humana 

1 TCU – Relatório de Auditoria TC-000.291/2010-2


1PREFEITURA DE PORTO ALEGRE, Unidade de Pesquisa Socioeconômica. Levantamento socioeconômico da Vila Dique. Relatório de Análise. Porto Alelgre. 2006.


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Blog da 5Conferência Nacional das Cidades - Etapa Porto Alegre

 Resgate do Blog da 5Conferência Nacional das Cidades - Etapa Porto Alegre


https://conferenciacidadespoa.blogspot.com/

Documentários sobre inundações em Porto Alegre - 2024




Documentário: Periferia à deriva - O maio que não acabou



Documentário sobre a enchente ocorrida em maio de 2024, na cidade de Porto Alegre, produzido pelo jornal Fala COHAB.

O FALA COHAB é um jornal comunitário independente, criado no bairro Rubem Berta, na cidade de Porto Alegre - RS


Documentário:  “E Se A Casa Fosse Sua?”


Documentário  “E Se A Casa Fosse Sua?” sobre o primeiro abrigo para mulheres e crianças em Porto Alegre, o Abrigo Luciana de Abreu.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Votar para que o CMDUA cumpra seu papel com a política urbana brasileira

Fonte: Brasil de Fato RS

Porto Alegre inicia processos eleitorais para o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA)

Brasil de Fato | Porto Alegre |
 
"Apesar de estarmos em fase final de revisão do Plano Diretor de Porto Alegre, o ponto que trata da participação e CMDUA não foi suficientemente debatido" - Foto: Luciano Lanes/PMPA

Para iniciar esse texto, é importante dizer que a existência dos conselhos no Brasil representa o alargamento da democracia oficial do país. Ou seja, além de votar para o Executivo e o Legislativo, o Brasil prevê espaços institucionais, com reuniões regulares, onde a população pode se manifestar através de seus representantes. É através desses espaços que são organizadas as conferências (municipais, estaduais e nacionais) e são debatidas propostas para as políticas públicas.

A propósito, quanto às políticas públicas, ao contrário do que muitas pessoas pensam, elas fazem parte da vida de todos os cidadãos. Toda vez que abrimos uma torneira ou damos descarga na privada, estamos fazendo uso de um conjunto de políticas públicas, desde o controle da qualidade da água que bebemos até a política pública de saneamento. Já que citamos o saneamento, precisamos dizer que Porto Alegre está devendo esse debate para a sociedade, sobretudo dar retorno sobre as ações do Conselho Municipal de Saneamento Básico do Município de Porto Alegre diante das consequências sanitárias dos alagamentos para as comunidades pobres atingidas. Veja aqui a riqueza da composição do Conselho de Saneamento, envolvendo saúde, limpeza urbana, bacias hidrográficas, entre outros.

Mas o tema aqui é o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA); o saneamento foi apenas para exemplificar que as políticas públicas fazem parte do nosso cotidiano e que temos espaços para nos manifestar, monitorar, colocar em prática o controle social, além de construir alternativas para os problemas ou propostas para melhorar o que já existe.

Quanto ao CMDUA, da mesma forma como o exemplo acima, trata-se de um espaço vinculado à Política Urbana brasileira, presente na Constituição Federal de 1988 através dos Capítulos 182 e 183, regulamentados pelo Estatuto da Cidade. É anterior à CF88, mas a partir dela ganhou novos contornos, foi consolidada a ampla participação da sociedade nos conselhos da cidade ou similares, como no CMDUA em Porto Alegre.  

A composição dos conselhos é outro aspecto importante. Na história do conselho em Porto Alegre, dizia-se que quem poderia participar eram os notáveis, os técnicos, dotados de conhecimentos adquiridos nas universidades. Mas, a partir de 1988, a participação é oficialmente aberta para representantes da sociedade em todo o país. Portanto, os grupos que até aquele momento encontravam-se excluídos de expor para debate suas ideias puderam participar ativamente. Aliás, a inclusão do capítulo sobre política urbana e habitacional só foi possível porque os movimentos sociais e populares conseguiram participar da Assembleia Nacional Constituinte – ANC. Uma história muito importante e bonita do nosso país.

A política urbana é importante porque fundamenta, legalmente, a criação e implementação dos Planos Diretores, a gestão democrática e outras leis relacionadas ao espaço urbano. Os conselhos da cidade (ou o CMDUA) são partes fundamentais dos planos diretores. No Plano Diretor de Porto Alegre vigente, a participação popular encontra-se no “CAPÍTULO VII - Do Sistema de Planejamento”, página 40, onde é apresentado o conjunto de estratégias:

Art. 25. Compõem a Estratégia do Sistema de Planejamento: 

  • I – Programa de Gerenciamento de Políticas que busque articular as diversas políticas que definem as diretrizes do desenvolvimento urbano, garantindo maior racionalidade na produção sustentável da cidade; 

  • II – Programa de Regionalização e Participação da Comunidade que busque a concretização de canais de participação, assegurando às Regiões de Gestão do Planejamento o espaço de deliberação sobre políticas de desenvolvimento regional; 

  • III – Programa de Sistema de Informações que busque disponibilizar informações para a gestão do desenvolvimento urbano, articulando produtores e usuários e estabelecendo critérios que garantam a qualidade das informações produzidas; 

  • IV – Programa de Comunicação e Educação Ambiental que objetive dar suporte de comunicação e divulgação sobre as principais idéias e conteúdos do desenvolvimento urbano ambiental, com caráter educativo, objetivando uma adequada compreensão do tema e incentivando a cultura participativa no planejamento urbano; 

  • V – Programa de Sistema de Avaliação do Desempenho Urbano que vise a descrever os elementos que propiciam avaliar a qualidade de vida urbana, bem como a aplicação das disposições do PDDUA.” (PDDUA, pg 40)

Apesar de estarmos em fase final de revisão do Plano Diretor de Porto Alegre, o ponto que trata da participação e do CMDUA não foi suficientemente debatido. A comprovação disso é o fato de a eleição para o CMDUA só estar acontecendo como consequência de processo judicial que obrigou a prefeitura de Porto Alegre a realizar a eleição. Portanto, o processo eleitoral em curso é extremamente importante, mas todo o Sistema de Planejamento deve ser debatido profundamente pela sociedade.

Isto certamente levará a mudanças internas absolutamente necessárias que possibilitem uma participação representativa da sociedade urbana contemporânea. Por exemplo: debates sobre gênero e espaço urbano, infâncias, cultura, agricultura urbana, adaptação às mudanças do clima de base comunitária, mobilidade urbana adequada ao perfil da população (caminhabilidade, cliclovias, etc), cadeia produtiva dos resíduos sólidos (socialmente inclusiva, organizada do ponto de vista espacial, social e sanitário) e a articulação entre todas as secretarias e órgãos da administração pública.

Entendemos que, quando se pensa na principal lei que trata do espaço urbano, deve-se levar em conta toda a diversidade, pluralidade e, principalmente, as desigualdades existentes na cidade. Se os conselhos atuais são resultados das lutas que abriram espaço para a sociedade se manifestar, o CMDUA precisa avançar rapidamente para alcançar a modernidade apresentada pela política urbana e superar a atuação participacionista isolada do processo nacional assentado na política urbana. Basta lembrarmos que quem chama as Conferências da Cidade em Porto Alegre são os movimentos de moradia e que não estão no CMDUA, a exemplo da 5ª Conferência


Fonte: FERU/RS / https://reformaurbanars.blogspot.com/2013/05/5-conferencia-nacional-das-cidades.html

No entanto, um passo importante neste sentido, observado na última gestão, foi a presença de uma ONG de direitos humanos. A presença da ONG Acesso no CMDUA foi quem apontou para a recuperação da principal característica que deve ter um conselho: o espaço de debates. Isso pode ser observado pelas atas publicadas e pelos vídeos das reuniões gravadas.

Pode ser só coincidência, mas talvez seja esta uma das razões pelas quais a ONG fosse a representação mais silenciada no CMDUA, a ponto de a presidência do conselho levar a aprovação da Resoluçãio n.º 01/2020, que limita a três minutos a manifestação do conselheiro, ou seja, o silenciamento do debate. Mas a razão apresentada era para conferir celeridade às ações do conselho, agilizando a tramitação dos processos.

Esta prática nos faz lembrar um artigo clássico da Geografia escrito por Neil Smith, cujo título é: “Quem manda nessa fábrica de salsichas”. Esta é, também, a evidência de que o CMDUA se converteu, a partir de 2013, somente em mais uma instância de aprovação de projetos oriundos do governo ou do setor empresarial. Os conselheiros representantes das regiões de gestão e planejamento não tiveram mais espaço para apresentar as propostas das suas regiões. O quadro abaixo mostra o número de propostas apresentadas por região desde que foi aberto para suas propostas.


Fonte: Siqueira, L.F. (2019) / https://lume.ufrgs.br/handle/10183/204599

1) OCDUA - Temática do Orçamento Participativo - Organização da Cidade, Desenvolvimento Urbano e Ambiental 2) IUA - Instituto Urbano Ambiental
(*) As propostas não foram a votação, portanto, nenhuma foi aprovada

Quem compõe o CMDUA

Atualmente, o CMDUA é composto por três grandes segmentos e cada um deles apresenta uma forma diferente de escolha dos representantes, incluindo calendário de eleição:

⦁    Governamental – órgãos públicos do município, estado e União. 
São indicados pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre (07), o governo do estado do RS (01 – Metroplan) e governo federal (01 – Ufrgs). No caso do estado do RS e do governo federal, são indicados representantes de órgãos cujas sedes se encontram em Porto Alegre.

2 – Comunitário – Conselheiros e delegados representantes de comunidades das Regiões de Gestão e Planejamento. 
É eleita uma chapa em cada região, composta por um conselheiro e dois suplentes. Ao mesmo tempo, são eleitos os delegados que farão parte do Fórum Regional de Planejamento de cada uma das oito Regiões de Gestão e Planejamento. Assim, cada região terá um fórum, cuja mobilização e discussões ficam a cargo do conselheiro e seus suplentes eleitos. Cabe destacar que não há regulamentação para o funcionamento dos fóruns regionais.

3 – Entidades – O segmento das entidades é composto por: entidades empresariais da área da construção civil; entidades de classe e afins ao planejamento urbano; entidades ambientais e instituições científicas.
A escolha das entidades que farão parte do CMDUA ocorre entre as entidades inscritas no processo eleitoral. O cidadão ou outra entidade que não tenha realizado inscrição, não poderá votar. 

Além dos processos eleitorais específicos, o cronograma também é diferente. No dia 9 de janeiro, iniciam-se as eleições nas Regiões de Gestão e Planejamento e a última votação ocorre em 1 de fevereiro de 2024.  Já a eleição para o grupo das entidades que farão parte do CMDUA acontecerá no dia 8 de fevereiro de 2024. 

Sobre as chapas da Região de Gestão e Planejamento 1

As duas chapas que concorrem a uma vaga pela RGP1 no CMDUA são: 

Chapa 1 – Porto Alegre + Humana. Cidade para as Pessoas!
Felisberto Luisi, conselheiro; Manuela Dalla Rosa e Paulo Guarnier, suplentes.

Chapa 2 – Kleber Sobrinho, conselheiro; Paulo Centin Dornelles e Jeferson Flores Souto
No quadro abaixo, incluímos as informações referentes às propostas e diretrizes que cada chapa defende. 

Considerando as pautas das duas chapas à luz do que apresentado anteriormente, fica evidente que a Chapa 1 apresenta todos os atributos necessários para representar a população residente em toda a Região de Gestão e Planejamento 1. Os candidatos demonstram conhecer a diversidade da região e suas necessidades.

Por outro lado, a Chapa 2 não apresentou propostas, apenas diretrizes. Lembrando que o Conselho é espaço de participação de representantes dos moradores da região e, cujas diretrizes já se encontram definidas por todo arcabouço jurídico relacionado à política urbana, os eleitores ficam sem informações sobre as ações que os candidatos da Chapa 2 pretendem levar para debater no CMDUA.

Por não apresentarem propostas claras, fica a impressão de que os candidatos da Chapa 2 não manifestam vínculo com a diversidade da RGP1, portanto, não dialogam com a realidade da região. E esta é uma característica importante para quem pretende representar a população da região.

O fórum dos delegados

Outro elemento importante da eleição para o CMDUA é a escolha dos participantes para o Fórum de Delegados. Os delegados terão a função de debater as questões relacionadas à região que chegam no Conselho através de governo ou outras organizações da sociedade e, principalmente, de elaborar debates e propostas para serem apresentadas no CMDUA. 

Lembrando a finalidade dos espaços de conselhos, é a sociedade organizada que deve apresentar pautas. Deve, inclusive, se manifestar e incidir sobre a forma de funcionamento do conselho, propondo mudanças até mesmo buscando a democratização do conselho, a exemplo do Conselho Municipal de Saúde, cujos conselhos locais são instâncias máximas deliberativas. Está aí mais uma tarefa de que a próxima gestão do CMDUA poderá se ocupar.  

* Geógrafa, Doutora em Planejamento Urbano e Ambiental

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Empreendimentos Habitacionais - Minha Casa Minha Vida - Porto Alegre 2023

O Governo Federal divulgou lista de empreendimentos habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida para Porto Alegre.

PORTARIA MCID No 1.482 , DE 21 DE NOVEMBRO DE 2023

Divulga as propostas de empreendimentos habitacionais enquadradas no âmbito da linha de atendimento de provisão subsidiada de unidades habitacionais novas em áreas urbanas com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial, integrante do Programa Minha Casa, Minha Vida, de que trata a Portaria MCID no727, de 15 de junho de 2023. 


A PORTARIA PODE SER CONSULTADA AQUI.



Para se cadastrar, basta acessar o site do DEMHAB.

sábado, 28 de outubro de 2023

Habitar a metrópole - capítulo do livro comemorativo aos 50 anos da RMPA



"Região Metropolitana de Porto Alegre (1973-2023) RMPA 50 ANOS História, Território e Gestão" - E-book


Capítulo "Habitar a metrópole: as políticas habitacionais na RMPA" pg. 255-275 . Autores: Mario Leal Lahorgue Lucimar Fátima Siqueira